Como fortalecer o sistema imunitário? (parte 2)

Como fortalecer o sistema imunitário? (parte 2)

No seguimento do artigo anterior, desta vez venho falar-vos sobre quatro ingredientes extra que podemos usar na cozinha e à mesa: amor, paciência, consciência e… gratidão. E como isso também pode fortalecer o nosso sistema imunitário.

Pode parecer à primeira vista estranho, mas forma como preparamos os alimentos (na cozinha) e a atitude com que os ingerimos (à mesa) estão relacionados com a nossa saúde. Aliás, a nossa atitude em geral com a vida tem consequências no nosso corpo físico.

É verdade que se sabe actualmente que as emoções se reflectem na nossa saúde. Por isso, para fortalecer o sistema imunitário, parece-me claro que temos de cuidar também do nosso corpo não visível.

Como explica Francisco Varatojo neste artigo, “a saúde tem essencialmente a ver com a forma como nos adaptamos ao meio em que vivemos e somos tão saudáveis quanto a nossa adaptação a factores físicos, emocionais ou sociais se dá de uma forma fluída e graciosa, quando a totalidade do nosso organismo se adapta espontaneamente ao meio circundante com o mínimo de tensão (não sem tensão, mas com a tensão necessária para a actividade que estamos a realizar ou para a situação em que nos encontramos).”

Amor, paciência e consciência na cozinha

Thich Nhat Hanh, um mestre Zen, diz-nos estas importantes palavras:

“A cozinha pode ser um espaço de meditação, quando praticamos a consciência ao cozinhar e a ordenar esse espaço. Podemos decidir executar as nossas tarefas de maneira relaxada e serena, seguindo a nossa respiração e mantendo a concentração no que estamos fazendo.

Se trabalharmos com outras pessoas, podemos trocar algumas palavras, mas apenas sobre o trabalho que está a ser feito. Reserve um bom tempo para cozinhar. Não tenha pressa. Sabendo que nossos corpos e os corpos das pessoas que amamos, dependem da comida que estamos a preparar, cozinhamos alimentos saudáveis com infusões do nosso amor e de nossa consciência plena”.

Em resumo, o que nos é dito é que não basta escolher os melhores ingredientes, prepará-los com os melhores métodos culinários, nos melhores tachos e comer nas proporções correctas se não adicionarmos estes ingredientes à nossa cozinha: amor, paciência e consciência. Se quisermos fortalecer o nosso sistema imunitário, isso faz também parte, embora possa não ser assim tão evidente.

Tal como referiu Michio Kushi no ‘Grande Livro da Macrobiótica’, “tanto a cozinha como o local de refeições deveriam estar arrumados e limpos e em silêncio. E aqueles que as preparam [as refeições], servem e as saboreiam deveriam permanecer em estado de grande paz e harmonia interior.”

O acto de cozinhar (e de organizar a cozinha e de servir a comida) é pouco valorizado, mas é de extrema importância e pode (e deve) ser, até, um acto meditativo, ao invés de fonte de stress. Afinal, estamos a preparar fontes de nutrição para nós e para aqueles que amamos.

Uma ideia que está muito presente na cultura tradicional Japonesa (e possivelmente noutras culturas Orientais) é a dignificação daquele que prepara as refeições para a família. Essa pessoa, normalmente nas sociedades mais tradicionais, a mulher, tem um grande poder.

É ela que escolhe os alimentos, que os prepara, que os cozinha, que dá a fonte correcta ou incorrecta de nutrição a si e aos outros. Através dos alimentos é possível transformar, por exemplo, alguém que está mais Yang, numa energia mais Yin.

À mesa no momento presente

Também quando nos sentamos à mesa, é importante tirarmos alguns momentos para tomarmos consciência desse momento (em vez de começarmos a comer distraidamente, como tantas vezes o fazemos). Assim, estaremos a cultivar a atenção plena, conduzindo-nos ao momento presente. Isso é também benéfico para a nossa saúde física e para fortalecer o nosso sistema imunitário.

É também importante trazer à mente os muitos Seres sofreram e que foram, até, sacrificados (mesmo na alimentação vegetariana) e os muitos outros que contribuíram para que a comida chegasse até nós. É uma enorme cadeia que facilmente fica esquecida.

Como disse Thich Nhat Hanh, “com apenas um pouco de consciência plena, poderá ver verdadeiramente de onde vem o pão que come. Ele não vem do nada. O pão vem dos campos de trigo, do trabalho árduo e também do padeiro, do fornecedor e do vendedor.

No entanto, o pão é mais do que isso. O campo de trigo precisa de nuvens e luz do sol. Portanto, num bocado de pão, há luz do sol, nuvens, o trabalho do agricultor, a felicidade de se ter a farinha, a habilidade do padeiro e ( milagrosamente! ) o pão. O universo inteiro se alinhou para que esse bocado de pão fosse parar às suas mãos. E não é necessário reflectir muito para se chegar a essa conclusão”.

É muito importante, também por tudo isto, pararmos antes de começarmos a comer. Não é necessário que seja feita uma oração, podemos apenas tirar alguns momentos para reflectir, respirar tomar consciência do momento presente. Isso permitirá desfrutar devidamente da comida.

Não somos donos do nosso corpo

“Na vida moderna, tendemos a pensar que somos donos do nosso corpo, que podemos fazer o que  quisermos com ele. No entanto, nosso corpo não é apenas nosso. Ele pertence aos nossos ancestrais, aos nossos pais e às gerações futuras. E também pertence à sociedade e a todos os demais seres vivos. As árvores, as nuvens, o solo e todos os seres vivos contribuíram para a presença do nosso corpo.

Devemos comer com cuidado, sabendo que somos cuidadores do nosso corpo, em vez de seus donos. Quando comemos, normalmente pensamos. No entanto, podemos desfrutar muito mais se tentarmos não pensar enquanto comemos. Podemos estar atentos apenas à comida.

Algumas vezes, comemos sem estarmos atentos a esse facto. A nossa mente não está focada. E quando nossa mente não está focada, nós olhamos, mas não vemos. Ouvimos, mas não escutamos. Comemos, mas não percebemos o sabor da comida. Mergulhamos em um estado de esquecimento, a falta de consciência plena. Para estarmos verdadeiramente presentes, devemos parar de pensar.” – Thich Nhat Hanh

Deixo também uma oração deste mestre Zen, que aprendi com Paulo Borges na primeira viagem aos Himalaias Indianos que fizemos, e que nunca mais me esqueci:

“This food is a gift of the earth, the sky, numerous living beings, and much hard and loving work. May we eat with mindfulness and gratitude so as to be worthy to receive this food. May we recognize and transform unwholesome mental formations, especially our greed and learn to eat with moderation. May we keep our compassion alive by eating in such a way that reduces the suffering of living beings, stops contributing to climate changes, and heals and preserves our precious planet. We accept this food so that we may nurture our brotherhood and sisterhood, build our Sangha, and nourish our ideal of serving all living beings.”

Thich Nhat Hanh tem uma série de livrinhos, “Mindfull Essentials”, dedicados a diferentes temas. Em Dharamsala, na Índia, comprei o “How to Eat“. É inspirador e ao mesmo tempo tão simples e tão profundo e minucioso… Se encontrarem à venda algum destes livros (penso que não há em Português), não hesitem.

Num próximo post, ainda nesta rubrica sobre como fortalecer o sistema imunitário, vou falar sobre o jejum e sobre a mastigação. Através deles podemos até, curarmo-nos.

Até lá!

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